Ex-catadora de recicláveis enfrenta a extrema pobreza, sequelas de erro médico e o abandono para garantir um futuro digno para duas crianças no Marajó.
Breves - PA (02 de setembro de 2026) — Em meio às adversidades do cotidiano marajoara, histórias de resiliência e amor materno despontam como lições de dignidade humana. No município de Breves, a trajetória de Jaqueline, uma jovem mãe solo de dois filhos que reside nas proximidades do lixão da cidade, revela a força de quem aprendeu desde a infância a transformar escassez em esperança.
Vídeo da reportagem no YouTube:
Da infância na catação ao desafio da maternidade solo
Ainda criança, Jaqueline trocou as brincadeiras pela poeira e fumaça do lixão municipal, onde acompanhava a mãe na coleta de latinhas de alumínio, garrafas plásticas e recipientes descartáveis para ajudar no sustento da família e evitar a fome.
Com a chegada da maternidade e o abandono por parte do companheiro ainda na primeira gestação, ela precisou se afastar do trabalho com recicláveis por não ter com quem deixar as crianças. "Parei de ir para lá depois que fui mãe. Não tinha rede de apoio para cuidar dos meus filhos, então passei a me dedicar exclusivamente a eles", relatou a moradora em reportagem especial exibida no telejornal Balanço Geral Marajó, da Marajó TV.
A jornada ainda impôs graves provações de saúde no ano passado, quando Jaqueline sobreviveu a complicações decorrentes de um erro em procedimento médico em Breves, necessitando de uma cirurgia de emergência para preservar a própria vida.
Trabalho doméstico, fé e a luta pelo alimento
Em busca de autonomia, Jaqueline chegou a trabalhar como diarista em residências, mas enfrentou episódios de preconceito, humilhações e falta de pagamento. Hoje, o sustento da casa vem do benefício do Bolsa Família e do apoio eventual dos pais.
Vivendo em uma casa humilde de madeira, em rua sem pavimentação e sem saneamento, a família mantém as portas fechadas para conter a poeira constante da área. Sem televisão ou rádio, a mãe utiliza uma pequena caixa de som para escutar hinos religiosos e ensaiar canções que apresenta nos cultos da igreja local, encontrando na espiritualidade o alicerce para enfrentar crises de ansiedade e a incerteza do dia a dia.
O sonho de uma cozinha estruturada
Apesar das limitações materiais, o lar é mantido com zelo e carinho. O principal sonho de Jaqueline é conseguir recursos para erguer uma cozinha na área dos fundos do terreno, substituindo o atual corredor improvisado onde prepara as refeições dos pequenos.
"Eu tenho muito orgulho de ser guerreira, de ter superado tantas dores e de ter meus filhos perto de mim, bem cuidados. Meu maior desejo é vê-los crescer com saúde e estudar para terem uma vida melhor", declarou emocionada.
Do estúdio do programa, o apresentador Marlon Nascimento destacou a bravura de Jaqueline como símbolo da mulher marajoara, que enfrenta a vulnerabilidade social com integridade, coragem e dedicação incondicional à família.
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