Encontro reúne representantes de mocambos marajoaras, pesquisadores e movimentos sociais para debater titulação de terras, fitoterapia tradicional e toadas de tambor.
A força da ancestralidade negra, a preservação dos conhecimentos tradicionais da floresta e a luta histórica pela posse definitiva da terra foram os eixos centrais do Seminário Cultural das Comunidades Quilombolas do Marajó, realizado em Breves. O evento reuniu lideranças comunitárias, mestres de cultura popular, benzedeiras e pesquisadores acadêmicos para discutir os caminhos de valorização e proteção das famílias afro-ribeirinhas no arquipélago.
Regularização fundiária e segurança nos territórios
De acordo com apuração veiculada pela Marajó TV, a garantia jurídica das áreas tradicionalmente ocupadas segue como a principal reivindicação dos povos quilombolas na região dos rios. As lideranças detalharam as etapas do processo legal — que exige a certificação de autorreconhecimento emitida pela Fundação Cultural Palmares e os complexos laudos antropológicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para a expedição dos títulos coletivos de propriedade.
Representantes de comunidades de municípios como Breves, Gurupá, Portel, Salvaterra e Baião denunciaram que a morosidade nos processos de titulação deixa as áreas vulneráveis à exploração predatória de madeira e à grilagem de terras. Para os participantes, o território titulado é a única barreira capaz de resguardar os cemitérios antigos, as áreas de coleta de sementes e os igarapés de onde as famílias tiram o sustento diário.
Medicina tradicional, garrafadas e saberes da floresta
O seminário reservou painéis dedicados à riqueza da fitoterapia quilombola marajoara. Rezadeiras e parteiras tradicionais compartilharam fórmulas seculares elaboradas à base de cascas, raízes e óleos vegetais nativos da Amazônia — como a andiroba, a copaíba, o cravo-da-terra e a resina de breu —, que funcionam como os primeiros socorros nas comunidades onde o acesso aos serviços de saúde pública ainda é limitado pela distância fluvial.
Pesquisadores presentes ressaltaram a necessidade de catalogar e proteger esse patrimônio imaterial contra a biopirataria, reconhecendo os sábios comunitários como legítimos detentores de uma farmácia viva cultivada há séculos sob a copa das árvores.
Toadas de tambor, peixe moqueado e pertencimento
A programação cultural envolveu os participantes em rodas de cânticos tradicionais sustentados pelo toque compassado de atabaques, surdos e caixas de marabaixo, entoando toadas que narram a saga dos antigos escravizados que fundaram mocambos impenetráveis nos labirintos de furos marajoaras.
Na culinária comunitária, o destaque foi o preparo do clássico peixe moqueado — método ancestral de defumação lenta do pescado sobre grelhas de varas de madeira cobertas com folhas de bananeira —, prática que remonta à fusão das técnicas afro-indígenas de conservação sem necessidade de refrigeração.
Ao término do encontro, as lideranças aprovaram uma carta conjunta de reivindicações endereçada aos governos estadual e federal, cobrando investimentos urgentes em eletrificação rural, água tratada, transporte escolar digno e a implantação de diretrizes curriculares específicas de educação quilombola nas escolas do campo no Marajó.
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Reportagem: Marlon Nascimento dos Santos
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