Mestres artesãos aceleram a produção de barquinhos, animais da floresta e brinquedos esculpidos na tala do buriti para abastecer feiras culturais no Marajó e na capital.
Breves - PA (22 de agosto de 2026) — A paciência, a destreza manual e a sensibilidade estética que caracterizam a identidade ribeirinha marajoara ganharam ritmo acelerado nos ateliês domésticos e oficinas familiares de Breves. Com a aproximação das festividades do segundo semestre e do Círio de Nazaré, artesãos do município intensificaram a escultura em miriti — arte popular secular que transforma a polpa leve e esponjosa da palmeira de buriti em miniaturas coloridas, brinquedos articulados e peças de colecionador.
Valorização cultural em Breves: Espaço permanente para artistas e artesãos
Reportagem da Marajó TV acompanha as ações da Secretaria de Cultura para valorizar a produção artística e o patrimônio popular local.
Matéria-prima das várzeas e o corte delicado da tala
De acordo com acompanhamento realizado pela Marajó TV, a produção do miriti combina saberes ancestrais com profundo respeito ecológico à floresta. A coleta dos talos é realizada nas várzeas e igarapés da zona rural, retirando-se apenas as folhas maduras das palmeiras de buriti (Mauritia flexuosa) sem comprometer o desenvolvimento dos frutos ou a vida da planta.
Na bancada de trabalho, a casca externa rígida é desbastada com facões até revelar a polpa interna, conhecida pelo toque aveludado e pela extrema leveza, carinhosamente chamada de "isopor da Amazônia". Com pequenas lâminas de navalha e lixas de madeira, os escultores moldam com precisão anatômica miniaturas dos clássicos navios gaiolas que singram os rios marajoaras, canoas de pescadores, animais da fauna silvestre — como araras, tucanos, botos e cobras articuladas — e imagens sacras que encantam turistas de todo o país.
Pigmentos vibrantes e o aquecimento da renda familiar
A fase de acabamento é a responsável por dar vida e identidade às criações. As peças recebem banhos de anilinas industriais e pigmentos diluídos em álcool, resultando em cores primárias puras e contrastantes — vermelho, amarelo, azul, verde e branco —, que secam rapidamente ao sol forte do verão amazônico.
Para dezenas de famílias que vivem nos bairros periféricos e comunidades ribeirinhas de Breves, a arte do miriti representa a principal injeção de recursos do segundo semestre. A produção é encomendada por lojistas, feirantes e devotos que comercializam as peças nos grandes centros urbanos do Pará e em eventos turísticos do arquipélago, permitindo o sustento digno e a compra de insumos escolares e domésticos.
Reivindicação por espaço permanente e valorização na Casa da Cultura
Apesar do talento reconhecido, a classe de artesãos brevenses reivindica maior apoio comercial para evitar a dependência de atravessadores, que costumam comprar as peças por preços baixos e revendê-las com margens elevadas nas capitais. A categoria defende a criação de um centro integrado de artesanato e a disponibilização de vitrines fixas para comercialização direta ao consumidor.
A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULT) informou que a conclusão das obras de revitalização da Casa da Cultura de Breves — viabilizada com recursos de fomento da Política Nacional Aldir Blanc — prevê alas dedicadas exclusivamente ao artesanato marajoara, proporcionando um espaço permanente de exposição, comercialização e oficinas de transmissão desse saber tradicional para as novas gerações da cidade.
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